Imagem capa - A última fotografia por JOÃO REGIS
Livre

A última fotografia

Esta é uma foto única. Se fizermos uma busca minuciosa em nossos álbuns de família talvez você encontre umas poucas fotos de minha mãe em que a mesma esteja séria. Escolhi esta imagem para postá-la aqui por que preciso contar a história dela (a foto). Mas antes de chegar nas escritas desta foto é preciso que você saiba um pouco de D. Bina, como era conhecida por todos.


Mãe é algo supremo, é um ser extremamente sábio. Vejamos: sempre que eu precisei fazer algum registro fotográfico dela tive que fazê-lo de forma espontânea, ou seja, precisei registrar o momento em que as coisas aconteciam, embora naquele tempo, eu enquanto fotógrafo, nem soubesse o real significado da expressão "foto espontânea", hoje quando fotografo as pessoas em um ensaio ou evento social, sempre busco dizer e/ou fazer algo para obter um riso natural e consequentemente ter lindos registros de forma dirigida que tanto se assemelha com momentos espontâneos. Ela já me ensinava que as melhores fotos são as fotos mais naturais e não necessariamente as fotos pousadas. Ela não pousava para fotos, eu que lutasse.


Certo 23 de junho, após uma apresentação de quadrilhas juninas no Sítio Bom Jesus, terrinha amada onde nasci e me criei, resolvemos fazer umas fotos de mamãe. Para aquela ocasião eu queria uma foto pousada no cenário junino que alí havíamos montado com o intuito de fotografar os dançarinos da quadrilha e quem se interessasse em ser fotografado. E foi um sufoco. Na época eu trabalha com uma câmera analógica e não podia desperdiçar chapas do filme com "cliques desnecessários", teria que ser um clique e esperar para receber uma boa foto. Mas ela não colaborava, rsrsrsrs. Fez tantos trejeitos, mugangos, como dizemos por aqui que fiquei furioso e disse: mãe, decida! A Sra vai querer a foto ou não? Quando ela viu minha nada bela cara enfurecida, fez cara de tacho e eu fiz a foto. Mas hoje eu sei que não fiz a foto dela no cenário de São João, a foto dela deveria ser a fotos com "mugangos" e tudo.


A foto que você visualizou no topo desta postagem foi registrada no dia do meu sacramento do Crisma em 2003 pelas lentes do meu amigo fotógrafo João Batista Padilha que não fotografa mais profissionalmente. Nesta foto minha mãe se apresenta doce, serena, quieta. Ela parecia outra pessoa. Quando terminou a cerimônia do Crisma ficamos fotografando aquelas poses tradicionais: fotos com o Bispo, com o padre, entre os monitores do crisma, entre colegas, etc. E ela assistiu a tudo pacientemente sem interferir em nada. Depois que fizemos estas fotos ela me olhou e disse: "tira uma foto comigo". Claro mãe! Ficamos em pé, um do lado do outro, encostamos as cabeças e pronto, temos a foto.


Poucos meses depois ela foi assassinada enquanto dormia no sofá da sala pelo seu esposo, meu pai. Esta história muitos conhecem e não vou descrevê-la agora. Talvez em outra postagem. A lições que tive da minha mãe me fizeram o ser humano que sou hoje. Ela sempre foi a única pessoa que eu dividia meus segredos, meus medos, minhas conquistas, minhas perdas e vitórias. Obrigado mamãe por tudo.


Mas o que eu pretendo contando para vocês a história de uma foto que narra ao final de tudo muita tristeza?

Eu quero que você ao terminar de ler estas linhas, diga a sua mãe a seguinte frase: MÃE EU TE AMO! Afinal, parafraseando Shakespeare: "com o tempo você aprende ... que sempre devemos deixar as pessoas que amamos com gestos de carinho, pois talvez possa ser a última vez que as vejamos".


Neste momento peço-lhe que cuide de quem você mais ama nesta vida. Seja-lhe grato e não esconda seus sentimentos, demonstre-o com toda sinceridade. Se puder fique em casa! Não ajude a propagar o COVID-19. Salve vidas!


Feliz dia das mães a todos nós!